Capa do postal de Natal de 2008 da Assembleia da República

 

Depois de passadas as festas natalícias, sentei-me perante uma pilha de papéis, cartões, envelopes, recebidos por essa altura, e decidi-me pela necessária arrumação.

Queria somente arrumá-los, rever um ou outro, confirmar respostas, registar alguma mensagem mais especial.

Contudo e à medida que os revia comecei a verificar o insólito: havia muitos que nada tinham a ver com o Natal. Nem traduziam o que o Natal quer dizer na tradição e cultura cristã, nem traduziam a festa que esta época representa para tantos, nem eram simplesmente, discretamente, neutros.

Na verdade, são os mais feios cartões de Natal que vi. Até podem nem ser propriamente feios, no geral, mas como cartões de Natal são completamente desadequados. São pretos e cinzentos, representam estruturas de obras, são estilizações incompreensíveis, contêm mensagens anonimamente impressas, num cumprimento de um ritual, assim carecido de qualquer significação.

Será uma simples questão de gosto, de conceito estético? Será uma confirmação excessiva da laicidade? Será uma ostensiva imposição de uma neutralidade que pretende anular a História, as convicções dos cidadãos, as significações que dão sentido à nossa vida pessoal e comum?

Penso que não se trata de uma questão estética. Pelo contrário, penso que há uma intenção, que rejeito. Rejeito o esvaziamento do simbolismo, rejeito a negação dos significados, rejeito a imposição de uma pseudoneutralidade que discrimina e que ignora a nossa matriz cultural. E rejeito ainda o desperdício dos recursos aplicados, do tempo dispendido.

Não se trata de uma grande questão, nem de um assunto de Estado. Tem contudo o significado imenso das pequenas coisas que fazem o quotidiano das nossas vidas que por não serem registadas, analisadas e criticamente assumidas, progressivamente vão construindo um futuro que não desejamos.