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As Nações Unidas decidiram instituir o dia 27 de Janeiro como o Dia Internacional de Memória às Vítimas do Holocausto, esta é a minha singela homenagem.

 

Há dez anos visitei, em Israel, o Museu do Holocausto.

 

A entrada é escura, um longo corredor iluminado por pequenas chamas, que se multiplicam nos espelhos que revestem as paredes, símbolo dos milhares de crianças que viram as suas vidas prematuramente ceifadas. Uma voz, longínqua, relembra docemente o nome de cada uma delas para que não se apaguem da memória colectiva que somos todos nós. Ao longo de todo o museu sucedem-se relatos de sobreviventes, fotografias, objectos pessoais e peças de vestuário já sem dono, filmes espelhando o horror e a tragédia. A visita conclui-se na serenidade de um jardim – Floresta dos Mártires - onde estão plantadas árvores que perpetuam o nome das famílias vítimas da intolerância e do ódio.

 

Uma só reacção: o silêncio que fala do respeito perante todos os que sofreram e os que morreram.

 

Uma só pergunta: Porquê tanta desumanidade? A questão que interroga porque deixaram seres humanos um dia de ver pessoas em outros seres humanos.

 

Os campos de concentração e de extermínio do regime nazi fazem parte, em lugar de grande destaque, das páginas mais vergonhosas e dolorosas da história do século XX. Os crimes cometidos dentro e fora dos campos de concentração devem permanecer na memória das gerações futuras como uma advertência contra a recorrência dos crimes contra a humanidade, que assentam no desprezo pelos outros seres humanos, no ódio, no anti-semitismo, na xenofobia, no racismo, no totalitarismo, na violência institucionalizada.

 

Evocar o Dia Mundial em Memórias das Vítimas do Holocausto é um dever e um direito.

 

Um dever que deriva da responsabilidade de relembrar os cerca de sete milhões e meio de pessoas que perderam a vida em campos de concentração. A intrinsecamente incompreensível, não apenas inaceitável, política do nazismo visou especialmente os judeus, mas não poupou também os ciganos, os negros, os homossexuais, os comunistas, os sindicalistas, os sociais democratas ou os doentes mentais. O holocausto é a expressão mais horrível que a história nos dá da atitude de quem nega ao outro o estatuto de ser humano. Relembrar é nossa obrigação na defesa de que a melhor vacina contra ele é a defesa radical da dignidade humana, do direito de todos os seres humanos a existir com dignidade, independentemente da sua origem étnica ou nacional, da sua filiação religiosa ou orientação sexual, do seu credo político ou estatuto social. A humanidade não pode esquecer. A Humanidade não pode perdoar.

 

Temos o direito de continuar a falar do terror do holocausto. E não podemos esquecer que, à saída dos campos de concentração, um dos receios dos libertados era o de que não acreditassem nas tão incríveis histórias que tinham para contar de tudo aquilo por que passaram e viram.

 

São muitos os sobreviventes que nos relatam o que aconteceu, dos anónimos aos mais conhecidos, cada um dá o seu testemunho de sofrimento. Lembro aqui, por todos, Primo Levi, e o seu  relato sobre a dignidade e a liberdade, Jorge Semprún contando a vida no campo, Jean Moulin, cujo exemplo de coragem e persistência lhe confere um lugar de destaque na história do sec.XX, Ilse Losa, fugida da Alemanha Nazi, retratando-nos o país em que viveu, quando se começava a desenhar o que veio a acontecer. E tantos, tantos outros escreveram páginas de sofrimento sobre o horror vivido. São tais relatos epicamente tristes, de um horror cujo fim não deixa nem a liberdade para festejar:

 

“Para a maioria dos Judeus libertados de Bergen-Belsen não havia nenhuma alegria na sua libertação. Tínhamos perdido as nossas famílias, as nossas casas. Não tínhamos nenhum sítio para ir. Ninguém nos esperava. Fomos libertados da morte e do medo da morte, mas não do medo da vida”,

 

Este é o testemunho de uma sobrevivente do Holocausto que espelha bem o horror que representa na memória de muitos a reconquista dos seus direitos, a sua dignidade roubada, o recomeçar do zero.

 

Uma palavra também para aqueles que permitiram, pela sua acção corajosa e sentido de justiça, que milhares de pessoas fossem “salvas” dos campos de concentração. Impõe a memória colectiva dos portugueses que relembremos a dignidade e a coragem de Aristides Sousa Mendes, como o próprio afirmou “era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível…” Tem, também ele, lugar na Floresta do Mártires, em Jerusalém.

 

Numa altura em que ressurgem teses revisionistas e de negação da existência do Holocausto e em que até um Estado parece disposto a dar-lhes guarida, é essencial que não se apague da memória colectiva o que aconteceu e os milhões pessoas que perderam as suas vidas. Á Comunidade Internacional, a todos nós, assiste a responsabilidade de tudo fazer para não permitir que mais páginas negras se escrevam na história mundial.

 

Relembro o início do livro de Primo Levi:

 

“…Pensem que isto aconteceu:

eu dou-vos estas palavras.

Gravem-nas nos vossos corações,

Estando em casa, andando na rua,

Ao deitar, ao levantar:

Repitam-nas aos vossos filhos…”

 

 

 

 

 


[Permalink] 20:35 | Publicação: Deputado ANA CATARINA MENDONÇA MENDES | Comentários (7533) | 'Trackback/Pingback' (0)

                                                               


Há muito que imaginava utilizar as novas tecnologias para a partir do Parlamento poder partilhar os temas da actualidade com todos os cidadãos. Desejo que a Janela Parlamentar possa dar oportunidade a um novo olhar sobre o Parlamento e ser um novo espaço de exercício da cidadania.


[Permalink] 20:32 | Publicação: Deputado ANA CATARINA MENDONÇA MENDES | Comentários (36233) | 'Trackback/Pingback' (0)