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Como é tradicional, no passado dia 1 do corrente mês de Abril, celebrou-se mais um dia das mentiras.

Como também já é habitual, algumas das notícias que a comunicação social veiculou honraram esta antiga tradição e trouxeram, ao conhecimento do público, alguns factos que não correspondiam à verdade. Na generalidade, no dia seguinte, os mesmos órgãos de comunicação social procederam a um desmentido formal dessa mentira.

A mentira assume várias dimensões: pode resultar do relato de um facto que não aconteceu ou decorrer de um facto que aconteceu de forma diferente daquela que é relatada. Outras vezes, a mentira aparece-nos sob a forma de uma verdade incompleta ou de uma inverdade com uma pequena parcela de verdade. Por vezes, a mentira ainda acontece quando imaginamos uma realidade que não existe. Uma realidade que não passa de uma ficção.

A mentira é, pois e nestas circunstâncias, uma realidade bem verdadeira e bastante frequente no relacionamento entre seres humanos. Assumindo, na realidade, diferentes matrizes e diferentes graus de ocorrência, a mentira não deixa de ser um bem precioso, a que todos recorrem quando a verdade da vida se revela difícil de aguentar. A ficção, o imaginário, a ilusão, as aspirações, as aparências ou as falácias levam-nos, muitas vezes, a uma boa mentira.

O que interessa realçar, nesta pequena reflexão, é que não existe uma verdade única. As nossas verdades não serão necessariamente as verdades dos outros, sendo que as mentiras dos outros são, simétrica e frequentemente, as nossas verdades. Assim sendo, facilmente concluiremos que há mentiras que são verdades e verdades que são mentiras. Tudo depende do contexto, do local e daqueles que as afirmam.

A verdade será, nesta postura humilde e relacional, um processo colectivo de construção de um certo entendimento do mundo. Um processo necessariamente relativo e marcado pela consciência de que qualquer verdade é verdadeira até que se prove que é uma mentira, porque outra verdade se instalou.

Se os homens acreditassem nesta dimensão, limitada e relativa, da verdade, talvez muitas guerras e muitos sofrimentos se pudessem evitar.

 

*texto publicado no jornal Diário do SUL, de 7 de Abril de 2008


[Permalink] 0:39 | Publicação: Deputado BRAVO NICO | Comentários (0) | 'Trackback/Pingback' (0)