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Participei, há uns dias atrás, no Congresso Nacional do Partido Socialista, na bonita cidade de Espinho. Comigo, naquela cidade do distrito de Aveiro, estiveram cerca de 2500 militantes do PS que, durante 3 dias, participaram nos trabalhos do mais importante momento da vida política de cada partido: o seu Congresso. É assim em todos os partidos políticos. De norte a sul do país, nas regiões autónomas e em todos os cantos do mundo onde há comunidades portuguesas, dezenas de milhar de mulheres e homens militam, activamente, nas organizações políticas a que pertencem. Todos disponibilizam parte significativa da sua energia e do seu tempo para se dedicarem à defesa daquilo que mais nobre e valioso todos temos: os nossos ideais, os nossos princípios e os nossos valores. Tenho o maior respeito por todos os que militam activamente na política. Com alguns, concordo nos ideais e nas convicções; com outros, discordo. No entanto, a todos considero e em todos valorizo essa postura de acção para a transformação da realidade. Tenho, aliás, um enorme prazer em debater com todos os que assumem as suas ideias e os seus pontos de vista. Nada nos faz aprender mais do que confrontarmos as nossas ideias e os nossos argumentos com os que pensam de forma diferente de nós. É no contraditório que podemos pesar a bondade dos nossos pensamentos e dos nossos argumentos e valorizar o que pensam os outros. É, muitas vezes, através de uma, franca e sincera, discussão que se constroem os consensos mais leais e sólidos. O exercício da militância num partido político, para lá de ser um direito de cada cidadão, representa um contributo, sério e construtivo, para a construção de uma Democracia mais participada e saudável. * texto publicado no jornal Diário do SUL
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 Esta última semana, o mundo viveu um dos seus momentos mágicos: a tomada de posse de Barak Obama, como 44º Presidente dos Estados Unidos da América. Em todos os cantos do mundo, milhões de pessoas assistiram, emocionadas, a esta cerimónia. Em milhões de rostos rolaram lágrimas quando se escutaram as palavras com que Barak Obama formalizou o seu juramento. Um rio imenso de lágrimas nasceu, em simultâneo, nas quatro partidas do planeta. Cada uma destas lágrimas contém, na sua composição (para lá da água e do cloreto de sódio, que nos faz lembrar o saudoso António Gedeão), uma das mais poderosas forças da humanidade: a esperança, a determinação e o ânimo. Foi esta força que Barak Obama parece ter ressuscitado em todo o planeta. É esta onda positiva que irrompe no meio da maior e mais grave crise financeira, económica e social que todos nós já conhecemos. Serão estes milhões de lágrimas o grande sinal que voltámos a acreditar em nós próprios? Barak disse-nos, no seu discurso de tomada de posse, que a resposta a esta questão está dentro de cada um de nós. Nos dias que passam, de tanta incerteza e de tanto temor, resta-nos um caminho seguro: reerguermo-nos, sempre, acreditando nas nossas capacidades e ajudando-nos mutuamente. Barak Obama não será, certamente, o Messias nem o D. Sebastião que nos salvarão. Precisamente, porque somos nós o nosso próprio Messias. texto publicado no jornal Diário do SUL
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 Na passada semana, a crise financeira e económica continuou a sua marcha internacional, com os respectivos ecos nacionais, as notícias do escândalo do BPN sucederam-se, com uma surpresa cada vez menor, e a dificuldade financeira do BPP acentuou-se, à medida que se vão conhecendo os detalhes do respectivo exercício financeiro. No entanto, no meio de toda esta ondulação bancária, um banco parece ter exibido os seus melhores resultados de sempre: o Banco Alimentar contra a Fome. Na realidade, o ano de 2008 revelou a maior recolha de sempre de bens alimentares para serem encaminhados para as famílias mais frágeis, através de instituições de solidariedade social. Uma autêntica notícia positiva, anti-crise e pró-solidariedade. Esta notícia merece-nos uma breve reflexão. Por um lado, observamos alguns exemplos de profundo egoísmo e cinismo, por parte dos que mais têm. Uma ânsia tal de procura do lucro fácil que quase levou ao colapso da economia global, prejudicando milhões e milhões de pessoas, em todo o planeta, que hoje têm vidas bem mais difíceis. Por outro lado, vemos edificantes evidências de profunda solidariedade e preocupação com os mais frágeis, por parte da esmagadora maioria dos cidadãos que, vivendo num momento de sérias dificuldades, ofereceram mais este ano do que em anos anteriores. Que grande diferença de postura na vida: os que mais têm, mais querem ter, não olhando a meios; os que menos têm, mais dividem, não olhando ao que lhes sobra. * texto publicado no jornal Diário do SUL
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 O líder do Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata, no decurso do Debate sobre o Estado da Nação, solicitou – quase que exigiu – ao Primeiro-Ministro que este lhe disponibilizasse toda a informação financeira relativa aos investimentos públicos (TGV, novo Aeroporto Internacional de Lisboa, Plano Nacional de Barragens, Plano Rodoviário, etc.). A solicitação tinha, no entanto, uma circunstância inédita: toda esta informação deveria ser inscrita numa simples página A4. Uma simples página A4! Esta curiosidade parlamentar não deixa, no entanto, de deixar transparecer uma realidade bem mais preocupante que o combate político na Assembleia da República. Na realidade, cada vez mais se evidencia uma particular aversão de muitos portugueses para com a leitura demorada, atenta e reflectida. De facto, como o exemplo atrás demonstra, a leitura de uma página A4 parece ser o limite máximo que o cidadão comum aguenta. Hoje, durante a frequência escolar, muitos estudantes, em vez de lerem um clássico, optam por ler os respectivos resumos; muitos de nós, no dia a dia, em vez de lermos um jornal com a calma e a reflexão necessárias para se pensarem as notícias, optamos, muitas vezes, por ler apenas os títulos; muitos prescindiram mesmo de ler e ficam-se apenas pelo pensamento e comentário dos comentadores televisivos ou radiofónicos. A leitura, calma, pensada e debatida está em extinção e, com isso, estamos a perder parte importante do processo de construção do conhecimento humano. Quando a informação de uma página A4 é suficiente para se decidir o futuro de um país, está quase tudo dito. A não ser que, nessa página A4, esteja escrito o seguinte: o leitor desta página deverá ler, na totalidade, toda a informação necessária para decidir com conhecimento de causa.
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 Na presente semana, em todo o país, Deputados da Assembleia da República visitaram escolas básicas e secundárias. A iniciativa, da responsabilidade da Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, teve, como finalidade, contactar, na realidade, com exemplos concretos de estabelecimentos de ensino que lidam, de forma adequada, com situações mais sensíveis de disciplina escolar. Assumindo, desde o início da legislatura, uma particular preocupação em acompanhar, de perto, a realidade da indisciplina e violência escolares, a Comissão Parlamentar tem vindo a promover um conjunto de iniciativas que têm contribuído para um debate construtivo e, consequentemente, positivo em torno desta realidade do sistema educativo português. Na minha qualidade de Deputado, visitei, na passada segunda-feira, a Escola Básica Integrada com Jardim de Infância da Malagueira, sede do Agrupamento nº 1 de Évora. A escolha deveu-se ao facto desta escola ter revelado, ao longo do tempo, uma boa prática educacional na integração dos seus estudantes – de origens sócio-económicas e culturais muito distintas – e na gestão quotidiana que efectua da relação pedagógica e das aprendizagens. Por outras palavras, visitei uma escola que não é notícia na comunicação social precisamente porque a notícia é a existência de disciplina e paz escolares. Mas, poder-se-ia visitar qualquer escola eborense, que poderia verificar-se sempre uma boa prática, nesta área tão sensível e tão mediática. De facto, no universo das escolas portuguesas, a esmagadora generalidade dos casos são bons exemplos de disciplina e paz escolares. Estas escolas deveriam ser mais visitadas e mais divulgadas, pois só através dos bons exemplos se pode aprender e disseminar as boas ideias. Que interessante seria se, um dia destes, um telejornal abrisse com uma notícia extraordinária: uma aula em que alunos(as) e professores(as) trabalharam, se respeitaram e cumpriram, dessa forma, a sua missão, com responsabilidade. Bastaria ir a 99,9% das aulas de um qualquer dia, em qualquer uma das nossas escolas. (texto adaptado de artigo publicado no jornal Diário do SUL do dia 11 de Maio de 2008)
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 Como é tradicional, no passado dia 1 do corrente mês de Abril, celebrou-se mais um dia das mentiras. Como também já é habitual, algumas das notícias que a comunicação social veiculou honraram esta antiga tradição e trouxeram, ao conhecimento do público, alguns factos que não correspondiam à verdade. Na generalidade, no dia seguinte, os mesmos órgãos de comunicação social procederam a um desmentido formal dessa mentira. A mentira assume várias dimensões: pode resultar do relato de um facto que não aconteceu ou decorrer de um facto que aconteceu de forma diferente daquela que é relatada. Outras vezes, a mentira aparece-nos sob a forma de uma verdade incompleta ou de uma inverdade com uma pequena parcela de verdade. Por vezes, a mentira ainda acontece quando imaginamos uma realidade que não existe. Uma realidade que não passa de uma ficção. A mentira é, pois e nestas circunstâncias, uma realidade bem verdadeira e bastante frequente no relacionamento entre seres humanos. Assumindo, na realidade, diferentes matrizes e diferentes graus de ocorrência, a mentira não deixa de ser um bem precioso, a que todos recorrem quando a verdade da vida se revela difícil de aguentar. A ficção, o imaginário, a ilusão, as aspirações, as aparências ou as falácias levam-nos, muitas vezes, a uma boa mentira. O que interessa realçar, nesta pequena reflexão, é que não existe uma verdade única. As nossas verdades não serão necessariamente as verdades dos outros, sendo que as mentiras dos outros são, simétrica e frequentemente, as nossas verdades. Assim sendo, facilmente concluiremos que há mentiras que são verdades e verdades que são mentiras. Tudo depende do contexto, do local e daqueles que as afirmam. A verdade será, nesta postura humilde e relacional, um processo colectivo de construção de um certo entendimento do mundo. Um processo necessariamente relativo e marcado pela consciência de que qualquer verdade é verdadeira até que se prove que é uma mentira, porque outra verdade se instalou. Se os homens acreditassem nesta dimensão, limitada e relativa, da verdade, talvez muitas guerras e muitos sofrimentos se pudessem evitar. *texto publicado no jornal Diário do SUL, de 7 de Abril de 2008
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 Numa das últimas sessões plenárias da Assembleia da República, ocorreu um debate sobre a reforma da Lei Eleitoral dos Órgãos das Autarquias Locais. Nessa tarde, no Parlamento, juntaram-se cerca de quinhentos portugueses eleitos pelos seus concidadãos. De facto, os Deputados e os Autarcas presentes, nessa tarde, no Palácio de São Bento, têm uma legitimidade equivalente e concretizam, no âmbito das respectivas competências constitucionais, uma acção política e social da maior relevância no nosso regime democrático. A Assembleia da República é um órgão tão legítimo quanto a Assembleia de Freguesia da mais pequena aldeia do nosso país. Embora com responsabilidades diferentes e dimensões incomparáveis, a primeira não é mais legítima que a segunda. Em ambos os casos, estamos a falar de instituições orgânicas do Estado, cujos titulares são escolhidos, livre e democraticamente, pelo povo português. Já exerci funções públicas, como membro da Assembleia de Freguesia de São Miguel de Machede (1989-1993 e 1997-2001), Presidente da Junta de Freguesia da mesma localidade (2002-2005) e Deputado na Assembleia Municipal de Évora (2002-2005). Desde Novembro de 2005, que sou Deputado na Assembleia da República, pelo círculo eleitoral de Évora. Sempre senti a mesma responsabilidade e motivação, em qualquer uma das funções que fui chamado a desempenhar, até ao presente. Sempre entendi que o facto de ter sido escolhido para representar os meus concidadãos, exercendo a actividade política, em consequência de uma escolha livre e democrática e de um ideal em que acredito, é um privilégio que devo assumir com a responsabilidade, a humildade e a ética próprias do serviço público. Naquela tarde, no Parlamento, encontravam-se cerca de quinhentos portugueses eleitos. Todos, sem excepção, ali estavam com o mesmo objectivo: representar e servir os seus concidadãos. Convergindo ou divergindo, como é próprio de uma Democracia saudável. *texto adaptado de artigo publicado no Diário do SUL
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Finalmente, um sítio na rede. A partir de hoje existo na rede. Um pequeno espaço, que sou eu, da forma como me mostro aos que me visitarem. Apresento-me, naquelas que considero serem as minhas principais dimensões vitais. O meu novo endereço é www.bravonico.com Visitem-me, conheçam-me e permitam-me que vos conheça.
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 Em Abril e Maio, de norte a sul de Portugal, milhares de homens e de mulheres empreendem uma das mais importantes viagens das suas vidas: a peregrinação a Fátima. Movidos pela Fé, a viagem que os peregrinos fazem, dia após dia, por campos, estradas, aldeias, vilas e lugares, é, certamente, um momento único de recolhimento e de reflexão. Realizar uma peregrinação é, paradoxalmente, parar para pensar e para escutar. Pensar no que de mais importante tem a nossa vida: a Fé, o Amor, a Família, a Saúde ou a Paz, que serão, certamente, as principais razões ou motivações para a peregrinação; Escutar o nosso pensamento, no silêncio do recolhimento e no som revigorante dos passos que se vão sucedendo numa cadência certa e que nos aproximam de um objectivo. As peregrinações são tão antigas quanto a humanidade. De Meca a Lourdes, de Fátima a Santiago de Compostela ou de Nossa Senhora D’Aires, em Viana do Alentejo, a Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena, a peregrinação representa sempre um ritual de encontro de cada um com a sua Fé e com a sua essência, enquanto ser humano. Fátima recebeu, no dia 13 do corrente, meio milhão de crentes. Todos lá foram porque quiseram parar a rotina das suas vidas, escutar a sua Fé e reencontrar os seus valores mais profundos. O mesmo fazem os muçulmanos, os judeus e todos os seres humanos, independentemente das suas crenças e religiões. Pode ser que, um dia, toda humanidade se encontre no final de uma peregrinação e entenda que a essência da nossa vida é vivermos todos uns com os outros, escutando-nos mutuamente com atenção e respeito, ajudando o próximo e vivendo em Paz. É esta a mensagem de todas as religiões de todos os tempos.
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 No passado dia 25 de Abril, comemorou-se o trigésimo terceiro aniversário da revolução que devolveu a Liberdade e a Democracia a Portugal. Nesse dia, devido a compromissos decorrentes da minha actual circunstância de Deputado à Assembleia da República, participei em quatro iniciativas: a cerimónia oficial, no Parlamento; a inauguração da XXI Edição da FIAPE (Feira Internacional de Agro-Pecuária de Estremoz); a aula especial na Escola Comunitária de São Miguel de Machede; a sessão oficial dos 110 anos da Sociedade Dramática e Recreativa Eborense. 1. No Parlamento, uma cerimónia nacional, com um ritual próprio e onde participaram um grande número dos actuais responsáveis institucionais de Portugal, muitos representantes diplomáticos, os capitães de Abril, alguns autarcas, mas pouco povo. Discursos solenes, onde se deu uma grande atenção às palavras que se disseram e, principalmente, às que não se disseram; 2. Na FIAPE, em Estremoz, muito povo, muita alegria, muita música, muita dinâmica, discursos mais emotivos e demonstrativos da obra feita, caras mais felizes e menos preocupadas; 3. Em São Miguel de Machede, um momento mais intenso e emocionado, no qual nove concidadãos adultos, pela primeira vez nas suas vidas, enviaram um correio electrónico, logo com uma mensagem dirigida ao Sr. Presidente da República; 4. À noite, em Évora, na sede da Dramática Eborense, uma cerimónia de grande dignidade de uma instituição centenária, que, ao longo dos seus 110 anos de vida, proporcionou a milhares de eborenses, uma oportunidade de participação cultural e cívica, assumindo-se como uma autêntica Escola de Cidadania da cidade de Évora. Em qualquer um destes quatro momentos se celebrou o espírito de Abril. No Parlamento, sede da Democracia, cada Deputado que interveio disse o que muito bem entendeu sobre a situação do país; em Estremoz, o Presidente da Câmara Municipal referiu alguma da obra feita e confrontou o Secretário de Estado, que lá estava, com a obra que falta fazer; em São Miguel de Machede, cada adulto enviou, ao Sr. Presidente da República, a mensagem que muito bem entendeu; na Dramática, ficou evidente que o espírito popular, materializado nas suas instituições, continua muito forte e dura mais tempo que os regimes. No final do dia, ao fazer o balanço do mesmo, concluí que Abril continua vivo. O espírito da Liberdade e da Democracia continua vivo no espírito de cada Deputado, de cada Autarca, de cada Instituição ou de qualquer Cidadão. Foram merecidas e sentidas as muitas palmas que, no Parlamento, foram dirigidas aos que, na madrugada de 24 de Abril, decidiram devolver a Liberdade e a Democracia ao nosso país. texto adaptado de artigo publicado no Diário do SUL
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PRIMAVERA…  A temperatura aumenta, guardando capotes e abrindo os decotes; os dias crescem, roubando tempo às noites; nos largos, as mesas e as cadeiras organizam-se nas esplanadas que recebem os primeiros clientes; nos postes dos telefones e da electricidade, as cegonhas, chegadas de viagem, tratam dos acabamentos dos ninhos onde nascerão os juvenis; em Gavião, as lampreias sobem o rio Tejo até Belver, onde os pescadores as pescam e as cozinham com um arroz divinal; nas pastagens, as margaças espalham cor e aromas, despertando as abelhas para o trabalho; nas salas de aula, os alunos desconcentram-se, prestando mais atenção aos soluços dos corações que à resolução das equações; nos alqueives, semeiam-se os serôdios, ao som das searas de trigo, que, nos dias mais quentes, se ouvem crescer; nos quintais, as pessoas sentam-se com a cabeça à sombra e o corpo ao sol, fazendo festas aos gatos que se enrolam nos colos; ao final da tarde, vem de regresso a pequena bilha com o litro de almece, que se come ao jantar com sopas de pão; nos interstícios das pedras dos campos, os lagartos espreitam o sol e aquecem-se, sob o olhar espantado dos pequenos coelhitos, que comem as tenras serralhas; ao fim do dia, a música lacustre das rãs vai substituindo o frenético ritmo dos grilos; à noite, os noitibós e os morcegos começam a patrulhar os céus, enquanto a coruja da igreja se faz ouvir por toda a aldeia. Eis a Primavera alentejana em toda a sua plenitude e beleza! É assim que a vemos nos dias que correm e é assim que a ouvimos na memorável 1ª Suite Alentejana, de Luís de Freitas Branco (1890-1955).
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 Após duas guerras mundiais em território europeu – a primeira entre 1914 e 1918 e a segunda de 1939 a 1945 –, seis países da Europa decidiram iniciar, em 25 de Março de 1957, uma caminhada de aproximação e de entendimento, que começou com uma preocupação de cooperação económica, em áreas sensíveis como o carvão e o aço, mas que tinha uma outra meta: a paz e a concórdia num continente devastado pelas guerras e pela miséria. A esta construção comum foram aderindo, ao longo do tempo, outros países, de tal forma que hoje a União Europeia conta com vinte e sete estados membros que, diariamente e através de um complexo sistema de negociação, vão construindo uma das zonas do mundo com maiores índices de tranquilidade, prosperidade e democracia. A construção europeia, com todas as dificuldades por que tem passado, e passa na actualidade, é um caso de verdadeiro sucesso. Há 50 anos que os países que constituem a União Europeia vivem em paz entre si, sendo que os respectivos habitantes têm vindo a atingir níveis crescentes de riqueza, educação e cultura. Portugal aderiu à União Europeia em 1986. Desde essa data, o nosso país redireccionou o rumo do seu desenvolvimento e sofreu um forte impulso de modernização. Vinte e um anos depois da nossa adesão, o balanço é extremamente positivo. A União Europeia é um bom exemplo do que é a construção complexa, mas pacífica, do presente e do futuro dos países e do continente europeu. A força das armas deu lugar à força e inteligência dos argumentos e dos processos negociais e as diferenças, que antes dividiam, são hoje a essência da força da Europa, enquanto espaço de Liberdade, Democracia, Prosperidade e Paz. Qualquer um de nós pode, amanhã, montar-se num automóvel e atravessar toda a Europa até ao extremo Norte da Finlândia, tendo a garantia de que pode fazer esta viagem em Liberdade e Paz, utilizando uma única moeda, encontrando-se protegido por leis que respeitam os Direitos Humanos e conhecendo países que se regem por Democracias. Em que outra parte do mundo isto é possível?
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 Na noite do passado sábado, ocorreu um eclipse total da Lua. Durante alguns minutos, o Sol, a Terra e a Lua alinharam-se, de tal forma, que a Terra se intrometeu entre a estrela e o pequeno planeta e, dessa forma, remeteu este último para uma sombra que o tornou invisível. Naquela noite, tal como quando ocorre a Lua Nova, foi possível observar o firmamento e identificar dezenas, centenas, milhares de estrelas. Nestes momentos, em que nos fixamos na imensidão do cosmos, normalmente apercebemo-nos da pequena importância que temos na enorme magnitude do Universo. Seremos a única forma de vida existente? Haverá alguém entre nós e aquela plêiade de estrelas que observamos? Será que foi apenas aqui, neste planeta, que ocorreu o milagre da vida? Estas e outras tantas perguntas assaltam-nos o pensamento e deixam-nos perante algumas das mais antigas questões da Humanidade. Questões para as quais ainda não encontrámos resposta. No entanto, no sábado, enquanto percorria o céu com o olhar, lembrei-me de três pessoas que pouco têm a ver umas com as outras: Neil Amstrong, José Saramago e António Aleixo. Neil Amstrong, astronauta americano, foi o primeiro ser humano a pisar a Lua, em 21 de Junho de 1969 e disse, nesse histórico momento, que era “um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade”; José Saramago, agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998, referiu, na cerimónia em que recebeu esta distinção, que, “neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante”; António Aleixo, um grande poeta português – que nunca recebeu nenhum Prémio Nobel, nem nunca viajou no espaço – deixou-nos esta mensagem: “O mundo só pode ser melhor do que até aqui, quando consigas fazer mais p'los outros que por ti!”
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TV… Esta semana, um grupo de meninos e meninas de uma escola de Matosinhos visitou a Assembleia da República. Encontrei esta juvenil comitiva no Refeitório, durante o almoço. Enquanto aguardava a minha vez, meti conversa com um pequeno cidadão: - De onde vens? – perguntei, para iniciar a conversa. - De Matosinhos! – retorquiu o menino, com sotaque do Norte. - É Deputado? – perguntou, de imediato e com grande entusiasmo, o pequeno aluno. - Sou sim. – respondi. - E é dos que aparecem muito na televisão? – questionou, de olhos muito abertos, o jovem cidadão. - Não, não sou dos que aparecem mais. – afirmei, perante a admiração do pequeno visitante. Naquele momento crítico do diálogo, apercebi-me de que o meu interlocutor ficara triste com a minha resposta. De tal maneira eu o desiludira, que desabafou, em jeito de protesto: - Se não aparece na televisão, então o que é que anda cá a fazer? Entretanto, a fila moveu-se e, enquanto pedi o meu prato de arroz de pato, perdi de vista aquele jovem e já não tive oportunidade de lhe responder. Não seria, certamente, uma resposta fácil de dar e de compreender…
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MUROS…  Algumas notícias, saídas na última semana nos órgãos de comunicação social, davam conta da construção de muros nas mais diversas partes do mundo. Na realidade, dois grandes e imponentes muros de betão armado estão a ser edificados: um, na fronteira entre os Estados Unidos e o México, para evitar a entrada de mexicanos em solo americano; o outro, na fronteira entre Israel e a Palestina, para diminuir a circulação entre os dois territórios. Para lá destes muros de cimento, outros muros estão a ser construídos. O maior destes muros talvez seja aquele que se está a levantar entre a Europa e África e que passa por uma construção política, legislativa e policial que tentará impedir o acesso, a espaço europeu, de milhões de africanos que sonham com uma oportunidade de escapar à morte e à miséria. Outro muro se está a construir dentro das nossas sociedades, que olham com receio e desconfiança para aquele que chega, quer trabalhar e, dessa forma, construir uma vida nova, da mesma forma que os portugueses o fizeram, no passado, e ainda fazem, no presente, em tantos países no mundo. Nas cidades, diariamente se edificam muros, através da disseminação de empreendimentos urbanos com acesso reservado aos respectivos residentes. Nos campos, outros muros começam a proliferar: são as estradas rurais que são destruídas; são as cercas de arame que impedem a passagem em todo o lado; são as grades e os portões que proíbem o acesso; são mesmo os muros de betão que nem o olhar deixam passar. Neste mundo em que já todos compreendemos que só a abertura, o diálogo, a partilha e o encontro com o outro nos levarão à paz, à compreensão e respeito mútuos, cada vez há mais muros. Muros físicos, muros económicos, muros sociais, muros culturais, muros religiosos e muros mentais. Muitos, e cada vez mais altos, muros! Lembro-me, com saudade, do espírito comunitário alentejano, onde os muros que dividiam os quintais tinham uma altura que permitia o encontro entre as pessoas: pelos muros se ofereciam e recebiam as laranjas da horta, as chouriças acabadas de curar no lume de chão, os bolos brancos da Páscoa, as filhós no Carnaval ou as palavras de amizade e verdadeira vizinhança. Os políticos, como construtores de civilização, deveriam deitar abaixo esses muros que dividem as pessoas e os países e aprender a construir os tais muros tradicionais alentejanos: os muros que compatibilizam o direito à privacidade com o dever da boa relação e o prazer da boa vizinhança. * texto publicado no Diário do SUL de 12 de Outubro de 2006
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